Stan Taylor
Ensaios sobre Poder

Quem Encomendou o Papão Desta Temporada?

Os teus inimigos foram testados em ti antes destas eleições.

Cães a perseguir um coelho, às ordens do dono

O diapositivo tem o número seis e a tipografia baça de todas as apresentações empresariais alguma vez projetadas na parede de uma sala de reuniões. Pertence a um estudo de 49 páginas preparado em julho de 2025 pela Stagwell, o grupo de marketing e sondagens dirigido pelo antigo estratega de Clinton Mark Penn, para um cliente que não consta da capa. Os jornalistas que o obtiveram identificaram o cliente como o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. A empresa entrevistara 8050 pessoas nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Alemanha, em França e em Espanha, fizera quinze grupos de foco e testara vídeos curtos em milhares de outras, tudo para saber que mensagens recuperariam a reputação de um governo no Ocidente. O diapositivo seis relata uma das lições na prosa chã do ofício: «a noção de jihadismo radical foi universalmente eficaz e, junto de públicos conservadores, ligar o jihadismo radical a um desejo de dominar outras religiões foi eficaz». A mesma página diz que a investigação pode agora moldar campanhas sobre, entre outras coisas, «como visar os mais novos de forma mais direta». Em todos os países testados, entre 73 e 81 por cento dos inquiridos concordaram que o islão radical era uma ameaça para o seu país e, depois do ciclo completo de mensagens, segundo a apresentação, o apoio ao cliente subiu em média mais de vinte pontos.

O documento foi divulgado em setembro de 2025 e noticiado pelo Drop Site News, por um site de economia israelita e outro sueco e por uma coluna de jornal de Arwa Mahdawi; a imprensa especializada cobriu o contrato da empresa com Israel. Não encontro uma única notícia sobre a sua conclusão central no New York Times, no Washington Post, na Associated Press ou na Reuters. Um governo pagara a uma empresa de sondagens ocidental para medir, país a país, quanto medo do islão radical os seus públicos carregavam e até onde uma bateria de mensagens, esse medo entre elas, os faria mexer, e os jornais de referência, tanto quanto consigo apurar, nunca falaram disso.

A apresentação teve o cuidado de dizer islão radical e jihadismo, e a distinção merece ser preservada, quanto mais não seja porque tão poucos dos que depois tocaram na mesma tecla se deram ao trabalho de a preservar. Uma mensagem com bons resultados nos testes viaja depois de solta, apanhada por gente que nunca viu apresentação nenhuma, e vai perdendo os adjetivos como um boato perde as fontes. Em outubro de 2026, o qualificativo tinha praticamente desaparecido, e o que restava nos títulos era o substantivo. O teu medo do estrangeiro foi medido antes de te ser vendido de volta, e quem o mediu sabia, ao ponto percentual, quanto valia.

Ódio planeado para estas eleições

A mesma lição estava a ser aprendida, de forma totalmente independente, no Texas. Em janeiro, o Politico perguntou a um consultor republicano chamado Vinny Minchillo porque é que tantos candidatos às primárias do estado faziam campanha contra a lei islâmica, e ele respondeu com uma franqueza normalmente reservada à sala onde se leem as sondagens. «A comunidade muçulmana é o papão deste ciclo», disse, e depois forneceu a metodologia: «Isto foi sondado de uma ponta à outra, e com os eleitores das primárias republicanas do Texas resulta.» Em abril, dizia à CNN que o tema era «ouro puro». Quase 95 por cento dos eleitores das primárias republicanas responderam sim quando o boletim do partido perguntou se o Texas devia proibir a sharia, um sistema jurídico que ninguém propusera adotar.

O principal estratega do governador Abbott explicou o atrativo ao New York Times em sete palavras: «É como costumava ser com a fronteira.» A fronteira tinha acalmado, e um partido que passara uma década em campanha com o medo do homem que atravessa o rio precisava de um homem novo, e encontrou-o na mesquita. O Times noticiou que a cara de um dirigente de um conselho islâmico do norte do Texas começara a aparecer em panfletos de campanha e que nenhuma das investigações ao empreendimento muçulmano previsto a nordeste de Dallas, o projeto no centro do pânico, encontrara qualquer irregularidade. A cara foi para os panfletos, e as conclusões ficaram no jornal.

Minchillo deu mais uma resposta, à NPR, em setembro, e é a confissão de método mais crua que alguém na política americana fez este ano. Questionado sobre a razão de o tema ser tão útil, disse: «se pudermos ter um problema de que falar que não seja a economia e a inflação, ficamos entusiasmados por o pôr no pacote de mensagens». O inimigo é um substituto da conta do supermercado. Um eleitor com medo da religião do vizinho é um eleitor que deixou de perguntar porque é que a renda lhe duplicou, e o consultor que arranja a substituição é pago, e fica satisfeito com isso, e está disposto a dizê-lo a uma rádio nacional porque calculou, e bem, que não vais estar a ouvir.

A droga mais forte do armário

A minha redação, o Wire, passou as três primeiras semanas de outubro a ler cerca de 6000 títulos de duas em duas horas, vindos de umas quatrocentas fontes noticiosas de todas as cores, e a pôr de parte os que empurravam com mais força: os títulos que te dizem o que sentir antes de te dizerem o que aconteceu. Esta manhã, a pilha tinha 1619 espécimes. O instrumento mais comum era o medo puro e simples, em 218. O segundo era a palavra-veredicto, o rótulo que condena antes de se apresentar um único facto, em 204. As palavras de ódio eram mais raras e mais quentes, e tinham a carga mais elevada de todos os recursos que medimos: oito e meio numa escala de dez. A Fox News forneceu 198 dos espécimes, e a CNN 187, com uma temperatura média mais baixa; o Gateway Pundit e o Blaze eram os mais quentes de todos. Uma palavra sobre o método, já que este ensaio te pede que desconfies de quem esconde o seu: o Wire inclina deliberadamente a caça para meios partidários e estatais, onde o empurrão é mais ruidoso, por isso estes números retratam a parte mais ruidosa da imprensa e devem ser lidos assim.

Depois contámos quem estava a ser escalado para o papel. Em todos os 1619 títulos, muçulmanos ou migrantes eram o alvo do empurrão em 274, cerca de um em cada seis. Entre os 164 que tiveram nove ou dez, os títulos mais manipuladores da pilha este mês, o número subia para 87, ou seja, mais de metade. Quanto mais forte o empurrão, mais provável é que a pessoa na ponta seja muçulmana ou migrante. Quando um editor vai buscar a droga mais forte do armário, o rótulo do frasco diz muçulmano ou migrante.

O vilão no calendário

Quando o voto antecipado abriu no Texas, a 19 de outubro, famílias de todo o estado começaram a encontrar nas caixas do correio folhetos dirigidos aos filhos. O folheto apresentava-se como um Texas Trans & LGBTQ+ Student Resource Guide, um guia para estudantes trans e LGBTQ+, e explicava a menores os seus direitos legais, a lei da emancipação e onde encontrar apoio fora da família. O remetente, uma entidade que dava pelo nome de Texas Transgender Student Union LLC, fora registado no Wyoming a 2 de setembro através de um agente de registos em massa, e o seu endereço de devolução não existe. A associação cuja imagem usou diz que não enviou nada. Ninguém sabe quem pagou o envio. Uma mãe do norte do Texas leu-lhe assim a intenção: «estão a usar os meus filhos para me levarem às urnas com raiva».

As Teias de Poder, o capítulo sobre redes de O Livro Negro do Poder, tem uma frase exatamente para este estado das provas: «Ninguém consegue provar nada. Toda a gente consegue sentir.» O que toda a gente consegue sentir, e o que os registos de publicidade conseguem provar, é que a criança transgénero é convocada todos os outonos eleitorais com a regularidade de uma ave migratória. Nas cinco semanas até 24 de outubro de 2024, a máquina de Trump gastou mais de 29 milhões de dólares em anúncios televisivos sobre cirurgias transgénero e 5 milhões na economia. Num período de duas semanas desse outubro, mais de 41 por cento do dinheiro gasto pela campanha e pelos seus aliados foi para anúncios anti-trans. Nesse mesmo outono, quando a Gallup perguntou aos eleitores que importância davam a cada um de 22 temas, os direitos das pessoas transgénero ficaram em último, com 18 por cento a considerá-los extremamente importantes, contra 52 por cento para a economia. Um ano depois, na corrida a governador da Virgínia, o lado republicano dedicou 57 por cento da publicidade paga a temas transgénero e 1 por cento ao crime e à imigração juntos, num estado onde 3 por cento dos eleitores apontavam o tema como uma das principais preocupações. O dinheiro e a preocupação correm em sentidos opostos, e essa é a assinatura de uma procura fabricada.

Este ano, o investimento deu retorno cedo. No fim de setembro, os anunciantes republicanos tinham gasto mais de 60 milhões de dólares em mais de 190 anúncios televisivos que mencionavam políticas transgénero, num ciclo em que uma sondagem da CNN concluiu que os eleitores punham o tema abaixo de cada um dos outros dez que testou. Uma segunda contagem, feita de outra maneira, aponta no mesmo sentido. Entre 1 de agosto e 12 de outubro, segundo a pesquisa do FactCheck.org nos dados de monitorização de anúncios, gastaram-se mais de 100 milhões de dólares em mais de 200 anúncios com as palavras «mudança de sexo», mais de 77 milhões dos quais em corridas ao Senado, e vários desses anúncios distorciam o historial dos democratas que atacavam. No Texas, um anúncio contra o candidato democrata ao Senado fechava com a frase «for they/them, not you» (pelos «they/them», não por ti), uma fórmula que a campanha de 2024 já tinha testado em público de futebol americano, e o PolitiFact classificou a sua alegação central como Falsa. A classificação apareceu uma vez; o anúncio passou enquanto houve dinheiro.

O capítulo do livro sobre vilões explica porque se escolhe a arma mesmo quando falha, como falhou na Virgínia, onde o candidato que mais gastou com ela perdeu por cerca de quinze pontos. A acusação de aliciamento de menores, diz, «está perfeitamente desenhada. Como provas que NÃO és pedófilo? A negação soa a culpa. O silêncio soa a culpa. O alvo está linguisticamente em xeque-mate antes de o jogo começar.» Também enuncia o custo sem rodeios: «A criação de vilões tem uma contagem de cadáveres.» Segundo a melhor estimativa, há cerca de 2,1 milhões de adultos transgénero e cerca de 724 000 adolescentes transgénero nos Estados Unidos, e estão a ser usados, todos os anos eleitorais, como alavanca sobre as ansiedades de mais de cem milhões de eleitores, a maioria dos quais, segundo as contas do Pew, não conhece pessoalmente nenhum. Olha para os ecrãs a 4 de novembro, a manhã a seguir à votação, e vê quanto tempo o tema fica no ar depois de cumprir a sua função.

A França mudou de rótulo em quinze dias

A agitação francesa deste outono começou, como a agitação francesa muitas vezes começa, num lycée. A 21 de setembro, os alunos de uma escola secundária de Créteil, nos arredores de Paris, saíram das aulas em protesto contra condições que um jornal juvenil resumiu depois como «des professeurs absents qu'on ne remplace pas, des classes à quarante, des locaux insalubres»: professores ausentes que ninguém substitui, turmas de quarenta, instalações insalubres. O movimento espalhou-se pelas escolas e, a 17 de outubro, os sindicatos e o que resta dos coletes amarelos juntaram-se-lhe num dia nacional contra la vie chère, o custo de vida. Cerca de 550 000 pessoas marcharam. Arderam carros, saquearam-se lojas e cerca de 2400 pessoas foram detidas durante o fim de semana. O governo francês, que tem todas as razões para saber quem andava nas suas ruas, culpou a ultraesquerda.

A 6 de outubro, quando o protesto ainda era um movimento das escolas, o presidente americano escreveu: «Isto é o islão a querer tomar conta de um País outrora grande.» A 19, ao sair da Casa Branca para um comício no Kansas, disse aos jornalistas que «Paris vai ser uma cidade muçulmana muito em breve, e não era isso que estava combinado». No dia seguinte, Benjamin Netanyahu, em plena campanha eleitoral, disse a um canal de televisão israelita que a França se tinha «rendido à invasão do islão radical» e recordou ter avisado Macron depois dos massacres de outubro de 2023: «E se não os eliminarmos aqui, vão tê-los em Paris. E é exatamente isso que está a acontecer.» A AFP notou que ele não apresentou provas e que os manifestantes eram uma amostra alargada do país.

Os títulos fizeram o resto. «No meio de motins muçulmanos», dizia o Daily Wire. «Desordeiros islamo-marxistas», dizia o Gateway Pundit. «Desordeiros muçulmanos e esquerdistas radicais unem-se para deitar abaixo o Ocidente», dizia um site de notícias cristão. Um congressista do Texas, cofundador de uma coisa chamada Sharia-Free America Caucus, disse à Fox News que a população muçulmana francesa tinha atingido «o ponto de viragem». Entretanto, outro colunista da Fox culpava os comunistas e os sindicatos, e os meios que não conseguiam decidir se os desordeiros eram muçulmanos ou marxistas resolveram a dificuldade declarando-os ambas as coisas. Até o New York Post, no próprio artigo que trazia a profecia do presidente sobre Paris, admitiu que «as imagens mostravam saqueadores e desordeiros de vários grupos raciais e étnicos».

Uma greve de alunos que queriam professores foi convertida numa guerra santa em quinze dias, e nada nas reivindicações dos estudantes mudou nesses quinze dias a não ser a legenda. É a esta velocidade que a máquina anda agora, e vale a pena cronometrá-la tu mesmo, de relógio na mão, da próxima vez que uma rua estrangeira pegar fogo.

O Corte está a ser aplicado a milhões

O capítulo 14 do livro, As Teias de Poder, descreve como uma rede afasta uma pessoa de que se quer livrar. As instruções foram escritas para remover uma pessoa de uma rede, um rival numa empresa ou um adjunto num palácio, e são breves. Tu «demonizas ou desacreditas o alvo, para que os outros se afastem». Tu «cortas-lhe o acesso às comunicações e aos recursos». Tu «promoves o medo por associação, para que até os amigos hesitem em defendê-lo, com medo de ficarem contaminados». O capítulo acrescenta, com a calma de quem já viu fazê-lo, que é por isso que os associados do alvo também são avisados ou afastados: o procedimento «cria uma morte social para o alvo».

Relê os três passos com uma população no lugar de uma pessoa. A demonização é o título, repetido até soar a boletim meteorológico. O corte do acesso é a moratória exigida a novas mesquitas, e a ordem do governador do Texas que classifica uma associação muçulmana de direitos civis como organização terrorista. O medo por associação é o mais elegante dos três, e é a razão por que a imprensa deste mês não para de soldar inimigos em compostos: o «islamo-marxista», a «Aliança Vermelho-Verde» de muçulmanos e esquerda. Um grupo de investigação contou mais de 1100 publicações contra muçulmanos americanos feitas por 46 eleitos republicanos em pouco mais de um ano. No Michigan, o candidato democrata ao Senado, Abdul El-Sayed, que seria o primeiro muçulmano a ter assento naquela câmara, foi descrito numa coluna publicada em vários jornais como um «fantoche da Irmandade Muçulmana» e pelo presidente dos Estados Unidos como «um tipo da Irmandade Muçulmana, a 100 por cento». A resposta dele, «Não tenho ligações nenhumas», é o género de frase que nunca alcança a acusação.

Um inimigo composto é uma armadilha para quem assiste. Defende o muçulmano e és marxista; defende o marxista e estás a dar guarida ao muçulmano. A pessoa decente comum, que emprestaria um escadote a qualquer um deles, decide que o mais seguro é não dizer nada, e a morte social segue conforme o calendário, administrada pelo silêncio dos vizinhos.

O mesmo capítulo recusa o conforto de uma conspiração. Ao descrever uma sala de doadores que prometeram, à sobremesa, um fundo de guerra capaz de torcer umas intercalares, diz que as pessoas «querem mistificar isto como o estado profundo, mas não havia nenhum “eles” mágico, só cadeiras». Essa frase devia vir impressa no interior de cada envelope de voto. O teu inimigo foi escolhido em milhares de cadeiras, cada uma ocupada por alguém cujo rendimento, cargo ou audiência cresce quando tens medo, e o incentivo coordena-os com mais fiabilidade do que qualquer telefonema. Uma conspiração exige, ao menos, gente competente que guarde segredos; um mercado só exige um produto que venda, e o medo do estrangeiro nunca deixou, nem uma vez, de vender.

O que o medo faz ao cérebro que vota

O teu corpo responde a um título antes de acabares de o ler. Joseph LeDoux passou a carreira a seguir uma via rápida do tálamo para a amígdala que leva o sinal de ameaça por fora do córtex pensante, e ele e os colegas descobriram neurónios da amígdala a mudar a resposta a um som temido em menos de quinze milissegundos. O resto de ti chega depois, e chega diminuído. As testemunhas que veem uma arma fixam os olhos nela e lembram-se pior dos outros pormenores da cena. A neurocientista de Yale Amy Arnsten mostrou que «mesmo um stress agudo e incontrolável bastante ligeiro pode causar uma perda rápida e dramática das capacidades cognitivas pré-frontais», ou seja, as faculdades de que precisarias para ver através do título são as primeiras a sair da sala. O livro comprime a descoberta em duas frases: «Crença: avalias os factos, chegas a conclusões e depois sentes emoções. Realidade: sentes emoções, crias conclusões e depois escolhes os factos a dedo.»

A descoberta precisa é mais inquietante do que a crença grosseira de que o medo transforma toda a gente num autoritário. Stanley Feldman e Karen Stenner não encontraram «nenhuma prova de um efeito direto da ameaça social, mas provas significativas de uma interação» com uma predisposição já existente: a ameaça acorda o autoritário que já dormia dentro de uma pessoa e deixa os outros mais ou menos como estavam. Lembra as pessoas da própria morte e o adormecido mexe-se. Numa experiência, um candidato carismático numa eleição simulada teve 4 votos em 95 no grupo de controlo e 31 depois de se pedir aos participantes que pensassem na morte, um aumento de quase oito vezes; noutra, lembretes da mortalidade ou dos atentados de 11 de Setembro aumentaram o apoio ao presidente Bush e diminuíram o apoio ao adversário. A química da pertença entra em cena. Homens a quem se deu oxitocina, a hormona vendida ao público como a molécula do amor, passaram a confiar mais no próprio grupo e a ser defensivamente mais agressivos para com um grupo rival. O investigador principal escreveu mais tarde que estes resultados «põem em causa a visão da oxitocina como uma “droga do amor” ou uma “química do carinho” indiscriminada». A versão do livro é mais curta: «Quando partilhas esta ameaça com outros, liberta-se oxitocina, que vos une através da oposição comum.»

O passo final subtrai o ser humano. Quando Lasana Harris e Susan Fiske examinaram o cérebro de pessoas que olhavam para fotografias de diferentes grupos sociais, o córtex pré-frontal medial, a região que usamos para pensar nas mentes dos outros, ativou-se para todos os grupos exceto os mais desprezados, que acenderam antes as regiões do nojo. Durante as primárias de 2016, Nour Kteily e Emile Bruneau concluíram que «os americanos desumanizam descaradamente os imigrantes mexicanos e os muçulmanos», que essa desumanização previa o apoio às políticas mais agressivas em cima da mesa e que os muçulmanos e latinos que a sentiam se tornavam, em troca, mais hostis, o que deu à ronda seguinte de títulos as suas provas. O medo agarra-se com mais facilidade a rostos de outra raça, e um reflexo de nojo feito para evitar doenças acaba por prever a oposição à imigração através de intuições que funcionam abaixo da consciência. A maquinaria é mais antiga do que qualquer campanha, e a campanha limita-se a alugá-la.

Em 2,7 milhões de publicações de meios noticiosos e membros do Congresso, cada palavra sobre o lado político contrário aumentava em 67 por cento a probabilidade de a publicação ser partilhada. As pessoas estão mais dispostas a partilhar falsidades que provocam indignação sem as lerem primeiro. A repetição faz uma afirmação falsa parecer mais verdadeira mesmo quando as pessoas sabem que não é. A raiva, mais do que a ansiedade ou o entusiasmo, é o que leva as pessoas a participar na política. E um medo, depois de aprendido, é enterrado vivo: o cérebro grava uma nova memória que suprime a antiga, e a antiga regressa num contexto novo, e é por isso que o mesmo vilão pode ser reformado depois de umas eleições e ressuscitado para as seguintes.

O teu esquecimento foi estudado com tanto cuidado como o teu medo. Experiências com noticiários manipulados mostraram, há décadas, que a televisão muda os problemas que os espectadores consideram importantes e o peso que esses problemas têm no seu juízo sobre um presidente. Aquilo que te puseram a temer por último tende a tornar-se a bitola com que se mede cada candidato, e tudo o resto que sabias há um mês, a conta do supermercado, os ficheiros Epstein e a mulher morta a tiro dentro do carro em Minneapolis, escorrega pela escala abaixo. Os sentimentos em relação ao próprio partido quase não mexeram entre 1980 e 2012, enquanto a avaliação média do partido adversário caiu de 45 para 30 numa escala de 100. Uma parte cada vez maior dos americanos vota agora contra alguém, e esse alguém foi-lhes escolhido.

Os ficheiros que ninguém procura

Em novembro de 2025, a Câmara dos Representantes votou por 427 contra 1 para forçar a divulgação dos ficheiros do Departamento de Justiça sobre Jeffrey Epstein, e o presidente promulgou a lei no dia seguinte. O prazo que a lei fixava, 19 de dezembro, passou, e no final de janeiro o departamento tinha divulgado cerca de 1 por cento dos documentos. A 30 de janeiro, o departamento publicou uns três milhões e meio de páginas, com nomes rasurados em muitas delas. Um juiz federal em Washington passou os meses seguintes a ordenar que se levantassem partes das rasuras e, em agosto, disse ao governo que o desacato era «uma promessa» e que «o público tem o direito de saber que raio se passa neste caso». A procuradora-geral que tratou da divulgação já saiu. O congressista republicano que forçou a votação, Thomas Massie, perdeu as primárias em maio, depois de se gastarem contra ele mais de 15 milhões de dólares vindos de fora.

A atenção do público lê-se num gráfico. Na semana a seguir à divulgação de janeiro, as pesquisas americanas pelo nome Epstein atingiram o ponto mais alto dos dezasseis meses que o gráfico abrange, um 100 na escala relativa do Google. Quatro semanas depois, os Estados Unidos estavam em guerra com o Irão. No início de março, as pesquisas tinham caído para 22, em abril para 9, e todas as semanas, sem exceção, desde o início de agosto, o valor marca 3. O momento da guerra deixo-o a outros; o efeito dela na tua atenção está no gráfico, e a atenção é o único recurso que qualquer pessoa com algo a esconder naqueles ficheiros mais gostaria que gastasses noutro lado.

A história foi convertida em munição. Candidatos e grupos externos, com os democratas por trás de quase nove em cada dez anúncios, emitiram este ano mais de 160 anúncios sobre Epstein, apoiados por mais de 35 milhões de dólares, o que te diz que o escândalo sobrevive sobretudo como um anúncio de trinta segundos que uma tribo dispara contra a outra, enquanto os próprios documentos, e os nomes por detrás das barras negras, quase ninguém os lê. O capítulo 17 do livro, O Pastor dos Cegos, apresenta a gestão deste fosso como a sétima lei da manipulação de massas: «Outro truque é escolher o momento da revelação. Às vezes podes até deixar a verdade sair, mas só quando já for tarde demais.» A verdade saiu em janeiro, e no espaço de um mês deram ao país uma coisa mais assustadora para onde olhar.

Até que ponto já escureceu

O livro fez uma previsão para este ano, numa lista que acompanha as palavras usadas para os migrantes, desde «imigrantes indocumentados» em 2015, passando por «animais», «invasores» e «vermes». A entrada de 2026 diz: «Atrevo-me a prever um exército de recrutas “patrióticos” mascarados, armados e com autorização do governo para caçar por desporto?» Foi escrita como provocação. Compara-a com os factos e decide tu até que ponto exagerou.

Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal permitiu que os agentes de imigração em Los Angeles retomassem as interceções itinerantes com base em quatro fatores em conjunto: raça ou etnia aparente, falar espanhol ou inglês com sotaque, o local e o tipo de trabalho que a pessoa aparenta fazer. O juiz Kavanaugh, num voto concordante, escreveu que a etnia aparente, por si só, não podia justificar uma interceção, mas podia ser «um “fator relevante”». A juíza Sotomayor, em voto de vencido, descreveu o país que a maioria acabara de permitir: «Não devíamos ter de viver num país onde o Governo pode deter qualquer pessoa que pareça latina, fale espanhol e aparente ter um emprego mal pago.» A Casa Branca já tinha dado às agências um número a atingir: 3000 detenções por dia. Este mês, a ProPublica tinha documentado 506 cidadãos americanos detidos por agentes de imigração, mais de 100 deles depois de os agentes porem em causa a sua cidadania, «quase todas» essas pessoas de cor, e pelo menos 70 dos 506 crianças ou adolescentes. A secretária da Segurança Interna tinha dito ao país, no outono anterior, que «nenhum cidadão americano foi preso ou detido». Em Minneapolis, em janeiro, agentes federais mataram a tiro dois cidadãos americanos, uma mulher dentro do carro e um enfermeiro de cuidados intensivos, durante aquilo a que o departamento chamou a maior operação de imigração que alguma vez levara a cabo. As mortes sob custódia da imigração atingiram um recorde antes de o ano fiscal ter sete meses. Da previsão do livro, a palavra desporto é a única que ainda espera pelas suas provas.

O cidadão comum foi convidado a ajudar. O governo alargou a sua linha de denúncias. Quando um humorista em Nashville montou uma falsa, como experiência, recebeu quase uma centena de denúncias, noticiou o Washington Post, de pessoas a entregarem os vizinhos, antigos amantes, motoristas da Uber e desconhecidos no supermercado. Uma delas veio de um educador de infância que tinha ido procurar os pais de um aluno nos registos da escola. «Não tenho culpa de eles terem um filho de 6 anos», escreveu. «Isso é problema deles.» Isto é o medo por associação na sua forma final, em que o vizinho calado se torna voluntário.

A violência corre em mais do que uma direção. Uma deputada estadual do Minnesota e o marido foram assassinados em casa em junho de 2025; Charlie Kirk foi morto a tiro num palco universitário em setembro desse ano; um atirador furtivo disparou contra um gabinete de imigração em Dallas, deixando uma nota em que esperava provocar nos agentes «verdadeiro terror», e acabou por matar dois detidos; um atirador abriu fogo no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em abril. Investigadores da Universidade de Maryland contabilizaram um aumento de 34,5 por cento do terrorismo e da violência dirigida nos primeiros oito meses de 2025 face ao ano anterior, ao mesmo tempo que, na contagem do FBI, os crimes de ódio denunciados desciam cerca de 7 por cento. Vais ouvir a palavra «linchamento» este outono, a propósito dos homens e mulheres negros encontrados enforcados em localidades do Mississippi ao Michigan. As autoridades classificaram quase todas essas mortes como suicídio, as famílias contestam muitas dessas conclusões, e uma delas foi um homicídio encenado para parecer um enforcamento; nenhuma deu origem a uma acusação por crime de ódio. Digo-o com exatidão porque a exatidão é toda a defesa que este ensaio recomenda. Uma causa que incha as suas provas entrega aos inimigos o único argumento de que precisam.

Os jovens são o prémio

Uma lealdade comprada aos dezasseis anos rende juros durante sessenta, e todos os compradores de medo do mundo ocidental já fizeram as contas. O slide seis da apresentação da Stagwell, lembra-te, oferecia a sua investigação para campanhas sobre «como visar mais diretamente os mais jovens».

A atração é real e mensurável. Em 2024, os homens americanos com menos de trinta anos votaram em Trump por 56 contra 42 por cento. Nas eleições alemãs de fevereiro de 2025, um quarto dos homens com menos de vinte e cinco anos votou na AfD. A Turning Point USA diz que as suas secções nas escolas secundárias cresceram 180 por cento no ano a seguir à morte do seu fundador. Uma conversa divulgada entre dirigentes dos Young Republicans, publicada pelo Politico, continha as frases «Adoro o Hitler» e «Toda a gente que votar não vai para a câmara de gás», e a resposta do vice-presidente foi que os miúdos fazem estupidezes. Quando investigadores em Dublin criaram contas falsas que se faziam passar por rapazes de dezasseis e dezoito anos, todas receberam conteúdos tóxicos em menos de vinte e três minutos, e no fim da experiência mais de três quartos do que as plataformas recomendavam era problemático ou tóxico, a maior parte vindo da manosfera.

E, no entanto, os jovens marcham em várias direções ao mesmo tempo, e é esse o dado mais interessante de todos. Os homens americanos jovens voltaram entretanto a aproximar-se dos democratas por dois dígitos nas sondagens, com uma exceção teimosa, os homens entre os dezoito e os vinte e dois anos, que não se aproximaram deles nem um milímetro. Na Grã-Bretanha, o Reform tem 9 a 12 por cento nas sondagens entre os menores de trinta e os Verdes lideram nessa faixa. Na Alemanha, os menores de vinte e cinco no seu conjunto, que deram cerca de um quinto dos votos à extrema-direita, deram um quarto ao Partido da Esquerda. Nos Estados Unidos, 57 por cento dos republicanos com menos de cinquenta anos veem agora Israel de forma desfavorável, o que sugere que o público que as sondagens do ministério escolheram como alvo não foi conquistado. Os jovens estão a ser puxados para o extremo que lhes chegar primeiro ao telemóvel, e os extremos começaram a disputar entre si a guarda deles.

O Kevin, no capítulo do livro As Cascatas Cognitivas, tem vinte e quatro anos e sente-se só, e um algoritmo leva-o do «só estou a fazer perguntas» a um único vilão, às discussões com a família que lhe queimam as pontes de regresso a casa, ao merchandising. «A Figura dá ao Kevin a alavanca psicológica suprema: um vilão poderoso e simples.» O que se segue é o alívio, e o alívio é a droga: «O mundo caótico e confuso entrou de repente num foco nítido e moral.» O teu filho é o Kevin, ou o teu sobrinho é, e quem o disputa tem mais dinheiro do que os pais dele, e estudou a solidão dele com mais atenção do que qualquer pessoa que o ame, porque pagou pelo estudo.

Os livros de história estão a ser reescritos agora

A crença confortável diz que a história é reescrita depois de um regime cair, por quem ganhou. É reescrita enquanto o regime governa, por quem o gere, e o trabalho faz-se com uma chave de fendas, uma placa de cada vez.

Em março de 2025, uma ordem executiva intitulada «Restaurar a Verdade e a Sanidade na História Americana» rejeitou qualquer relato da nação como «intrinsecamente racista, sexista, opressiva ou de qualquer outra forma irremediavelmente defeituosa» e mandou o Departamento do Interior rever os monumentos e as placas do país. Nesse verão, a Casa Branca abriu uma revisão de oito museus do Smithsonian para «eliminar narrativas fraturantes ou partidárias», e em julho deste ano publicou um relatório de 162 páginas que acusava o Museu Nacional de História Americana de «ativismo político extremo». Em setembro deste ano, o secretário do Smithsonian, o primeiro historiador a ocupar o cargo, demitiu-se. Avisos nos parques nacionais passaram a convidar os visitantes a denunciar conteúdos «negativos sobre americanos do passado ou vivos». O pessoal de Fort Pulaski, na Geórgia, recebeu ordem para retirar a fotografia de 1863 das costas cheias de cicatrizes de um homem que fora escravizado, uma das imagens mais famosas da história americana. Uma folha de cálculo produzida por ordem judicial em junho listava 51 objetos retirados de 24 locais dos parques, pelo menos 13 deles destruídos ou perdidos; no Memorial Franklin Delano Roosevelt, um painel sobre as políticas discriminatórias da sua administração foi substituído por outro sobre a cadeira de rodas dele. Os painéis de Filadélfia que evocam as nove pessoas que George Washington escravizou na President's House foram retirados em janeiro. A página web do Monumento Nacional Stonewall trocou discretamente «LGBTQ+» por «LGB». O Pentágono apagou páginas que homenageavam Jackie Robinson e os Navajo Code Talkers numa purga tão mecânica que a pesquisa por palavras-chave assinalou fotografias do Enola Gay, e só as repôs depois de um coro de protestos. O Oklahoma inscreveu nas normas do secundário a exigência de que os alunos «identifiquem discrepâncias nos resultados das eleições de 2020», até o supremo tribunal do estado anular as normas por uma questão técnica. Cada remoção era pequena o suficiente para passar por arrumação, e todas juntas equivalem a uma nova edição do país.

A Grã-Bretanha faz isto com mais delicadeza, que é a maneira britânica de fazer tudo. A revisão do currículo escolar feita pelo governo, publicada em novembro passado, considerou que a história estava «de um modo geral a funcionar bem», e uma pesquisa no texto integral não encontra lá as palavras império, colonial, escravatura e racismo. O Reform UK, que agora governa câmaras municipais por toda a Inglaterra, prometeu no seu manifesto que qualquer aula sobre o imperialismo britânico ou a escravatura «tem de ser emparelhada» com um exemplo não europeu, e o seu então presidente, Zia Yusuf, disse ao país que «no conjunto, o Império Britânico fez muito mais bem do que mal ao mundo». Em St Helens, este mês, o líder da câmara pelo Reform anunciou que o município «não assinalará o Mês da História Negra» e, quando lhe perguntaram pelo Dia em Memória do Holocausto, disse «O júri ainda não decidiu», antes de confirmar que o município continuaria a assinalá-lo. O manifesto do partido no País de Gales prometia «acabar com a doutrinação política no património». E quase todos os imigrantes adultos que se tornam cidadãos britânicos continuam a ter de passar num teste baseado num manual oficial cujo capítulo de história mais de 175 historiadores descreveram como «profundamente enganador e, em certos pontos, comprovadamente falso». Tanto quanto consigo apurar, é o único texto de história que o governo britânico não mostrou vontade nenhuma de corrigir.

O método é o mesmo onde quer que apareça. O conselho nacional dos manuais escolares da Índia retirou o capítulo sobre as cortes mogóis. A Rússia acrescentou ao seu manual único de história uma secção sobre a «operação militar especial» e este ano publicou uma história do Donbass ocupado para as crianças que lá vivem. Os novos manuais de Hong Kong informam os alunos de que a cidade nunca foi uma colónia britânica. O livro dá nome ao padrão numa só frase: «Nas escolas, as crianças aprendem a história da sua nação em manuais escritos pelos vencedores.» O veredicto sobre o resultado tem cinco palavras: «Acabaram os estudos. Agora votam.»

Não vou recorrer à comparação habitual com os anos 30. Foi apontada a tantos adversários durante tantos anos que agora funciona como sedativo: o leitor ouve-a, conclui que quem escreve é histérico e volta a adormecer. O presente não precisa de fantasia emprestada. Os teus netos vão estudar esta década numa sala de aula, se alguém ainda tiver autorização para a ensinar, e vão fazer a pergunta que todas as gerações fazem à anterior: como é que isto pôde acontecer à vista de todos? A resposta honesta será que aconteceu à vista de todos porque quase toda a gente estava a olhar para o estranho.

A jaula constrói-se enquanto olhas para o estranho

As instituições que avaliam as democracias do mundo publicaram as notas deste ano, e os Estados Unidos chumbaram. Em março, o Instituto Varieties of Democracy, na Suécia, que classifica 179 países na mesma escala, anunciou que os Estados Unidos tinham perdido o estatuto de democracia liberal pela primeira vez em mais de cinquenta anos. O índice do país, 0,79 em 2023, estava em 0,57 no final de 2025, depois de perder 24 por cento num só ano, de volta ao nível de 1965, e a sua posição mundial caiu do vigésimo para o quinquagésimo primeiro lugar. «A velocidade a que a democracia americana está a ser desmantelada não tem precedentes na história moderna», diz o relatório, e acrescenta uma comparação que devia envergonhar quem ainda acha o assunto exagerado: um declínio desta dimensão levou mais de quatro anos a Viktor Orbán na Hungria, e cerca de uma década a Narendra Modi na Índia e a Recep Tayyip Erdoğan na Turquia. O mesmo relatório inclui o Reino Unido entre os novos autocratizadores do mundo, por causa de um declínio da liberdade de expressão e dos media. A Freedom House baixou a pontuação americana de 84 para 81. A Economist Intelligence Unit colocou o país no ponto mais baixo desde o início do seu índice e, entre as razões, segundo um resumo do relatório, estava o uso extraordinário das forças policiais federais contra grupos étnicos e raciais específicos sem causa provável.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, que escreveram a obra de referência sobre a forma como as democracias morrem, foram mais diretos. No inverno passado, com Lucan Way, concluíram na Foreign Affairs que «no segundo mandato de Trump, os Estados Unidos resvalaram para o autoritarismo competitivo», o tipo de regime em que as eleições continuam e o campo está inclinado. Levitsky e Way tinham definido o seu carácter dez meses antes, em cinco palavras que se ajustam exatamente a este outono: «Há competição, mas é desleal.» Toda a gente mantém o voto e só lhe pedem que o gaste no medo que lhe fornecem, enquanto as instituições que teriam travado o vencedor são purgadas e enchidas de fiéis.

Um público consente nisto sem reparar que consentiu, e o capítulo do livro sobre a manipulação de massas explica o método: «Se a autoridade for subindo a temperatura devagar, uma liberdade aparada aqui, uma minoria transformada em bode expiatório ali, as pessoas ficam quietas, quentes e apaziguadas, desde que o dia a dia ainda tenha pizza, desporto e telenovelas.» E indica também o prazo: «Mais vale resistir à mudança enquanto ainda te consegues reconhecer.» Todas as gerações que viveram uma viragem destas julgaram que estavam a viver uma discussão. Só em retrospetiva uma discussão se revela uma transferência de poder, e nessa altura quem reparou tarde está a escrever memórias sobre como ninguém podia ter sabido.

Os mesmos académicos permitem-se um consolo: a viragem «é reversível». Em abril, os eleitores húngaros, depois de dezasseis anos de Orbán, correram com ele com uma afluência recorde. Um campo inclinado ainda pode ser ganho por quem se recusa a deixar-se assustar ao ponto de jogar na metade errada. A jaula tem uma porta, e a porta é um boletim de voto depositado por um eleitor que sabe exatamente que medo lhe venderam e se recusa a pagá-lo.

Como manter a cabeça antes de novembro

As eleições são a 3 de novembro. O livro contém um conjunto de práticas feitas para este tipo de cerco, e todas elas deixam em paz o teu partido e a tua igreja e reorganizam a ordem pela qual as coisas acontecem dentro do teu crânio.

Começa pela única pergunta a que o livro chama a tua arma, em Senhores da Realidade: «O que estou a ser levado a sentir, e porquê agora?» Aplica-a a cada anúncio, folheto e título daqui até ao dia das eleições, e fá-la em voz alta se estiveres sozinho. Depois faz a pergunta do consultor, aquela a que Vinny Minchillo respondeu por ti: que problema está este medo a substituir? Se a resposta for a renda, pergunta pela renda a todos os candidatos do teu boletim e repara quais deles mudam de assunto para a mesquita.

Faz a auditoria ao vilão de A Dádiva do Inimigo a quem mais odeias este mês. «Quem me ensinou a vê-los como inimigos? O que ganho em ter este vilão? O que perderia se deixasse de os combater? Este vilão está a tornar-me maior ou mais pequeno? Derrotá-los exige destruir seres humanos?» Depois ganha tempo, a que o livro chama «a tua maior defesa». Espera dois segundos inteiros antes de responderes a alguém sobre política, e não partilhes nada no dia em que o vês pela primeira vez; quem vende medo depende da velocidade, porque um medo que dormiu uma noite costuma começar a parecer ridículo ao pequeno-almoço. Passa um dia inteiro em silêncio antes das eleições, sem notícia nenhuma, como faz o Protocolo Fénix do livro. O mundo continuará lá de manhã, e vais enfrentá-lo com o córtex pré-frontal com que nasceste.

Mantém um amigo do outro lado. As Teias de Poder dizem-te para manteres «pelo menos uma tábua de salvação legítima num campo rival, mesmo quando estás confortável, com alguém que não te deve nada e te respeita na mesma». Toda a maquinaria descrita neste ensaio depende de nunca jantares com a pessoa que te ensinaram a temer, e desmorona-se, pela minha experiência, algures por volta do segundo prato. E quando o alvo for o teu vizinho, sê o aliado. Solomon Asch descobriu que uma única voz discordante numa sala quebrava o feitiço de uma maioria unânime e errada, e o livro tira a conclusão por ti: «Um aliado estilhaçou a ilusão de unanimidade e libertou o indivíduo.» O passo do medo por associação, no corte, só funciona se todos os espectadores ficarem calados. «Quando vês alguém a ser manipulado e ficas calado», diz o último capítulo do livro, «isso é uma escolha.»

Prepara-te também para os anos depois de novembro, ganhe quem ganhar, como te prepararias para um inverno rigoroso. Conhece os teus direitos e os nomes dos teus vizinhos. Constrói uma teia de pessoas que se conheçam e confiem umas nas outras por cima das linhas que te ensinaram a temer; uma teia assim é a única estrutura que todos os aspirantes a autocrata acharam difícil de cortar. As Teias de Poder dão a regra para sobreviver a um corte, e numa época como esta importa mais do que qualquer outra: «Nunca deixes que uma única rede se torne a tua única fonte de poder e mantém sempre uma tábua de salvação para uma base de poder alternativa.» Acima de tudo, torna-te mais difícil de prever. «O sistema funciona à base de pessoas previsíveis», diz o livro. «Deixa de ser previsível. É essa a revolução que realmente funciona.»


O livro fecha o seu capítulo sobre a linguagem, A Língua da Serpente, com um breve catálogo das formas modernas da serpente. «Cada anúncio que te faz crescer água na boca por coisas que te vão matar. Isso é a serpente. Cada político que te põe o coração aos saltos de raiva enquanto votas na tua própria destruição. Isso é a serpente.» A serpente tem agora uma empresa de sondagens, e uma apresentação de diapositivos, e um consultor capaz de dizer aos ouvintes de uma rádio nacional que está entusiasmado por te dar algo para temer que não seja o preço dos ovos. Nunca foi tão sofisticada, e nunca foi tão fácil de ver, porque os seus métodos estão agora registados, nos seus próprios diapositivos e nas suas próprias palavras.

O teu ódio tem um cliente. O teu voto não foi vendido, ainda.